O espelho não mente, ele alucina

Virou passatempo nas redes sociais compartilhar as “alucinações” das novas Inteligências Artificiais. A gente ri quando o algoritmo sugere colar queijo na pizza com cola escolar ou inventa fatos históricos com uma confiança inabalável. O nome técnico para isso é alucinação, quando a máquina gera informações falsas que parecem verdadeiras. Mas rir da máquina pode ser só uma desculpa para não encarar algo bem desconfortável: ela se parece muito com a gente.

Antes de julgar o silício, precisamos olhar para o carbono. O jeito que a IA erra não é nada de outro mundo. Na verdade, é uma cópia quase perfeita de como a mente humana funciona quando está isolada ou mal informada. O algoritmo tenta preencher os buracos, e nós fazemos o mesmo. Quando nosso cérebro é treinado com poucos dados, ou seja, quando lemos pouco, viajamos pouco e conversamos apenas com quem concorda conosco, ele também começa a inventar conexões que não existem.

O cérebro humano detesta o vácuo. Sem explicação para um evento complexo e na falta de dados confiáveis, nós criamos histórias. É assim que nascem as teorias da conspiração. Quando alguém jura que a Terra é plana ou que existem chips de controle em vacinas, essa pessoa está tecnicamente alucinando. Ela pegou pedaços soltos de informação e, sem um banco de dados decente sobre a realidade, costurou uma história que faz sentido para ela.

Basicamente, teorias da conspiração são alucinações coletivas geradas por cérebros treinados com dados ruins. A IA faz isso porque foi programada para responder a qualquer custo e agradar o usuário. Nós fazemos isso porque buscamos conforto e pertencimento. A diferença é que, quando a IA erra, chamamos de “bug”. Quando nós erramos, chamamos de “minha opinião”.

Vale lembrar uma das regras mais antigas da computação: Garbage In, Garbage Out (Lixo entra, lixo sai). É simples: se você alimenta um sistema com dados ruins, o resultado vai ser ruim. Só esquecemos que essa regra não vale apenas para computadores. Se alimentamos nosso cérebro todo dia com manchetes sensacionalistas, fofocas e correntes de WhatsApp, não dá para esperar que nossa mente produza pensamentos críticos de qualidade ou soluções criativas.

No fim das contas, exigir que a IA pare de alucinar enquanto a humanidade continua inundando o mundo com desinformação é uma batalha perdida. A máquina não tem culpa de aprender com nossos maus exemplos; ela apenas processa o que nós fornecemos. O verdadeiro desafio aqui não é técnico, mas de autocrítica. Enquanto não assumirmos a responsabilidade pelo lixo que produzimos, continuaremos apontando o dedo para os erros da Inteligência Artificial, sem perceber que ela é apenas o aluno mais aplicado da nossa escola de incoerências.

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