A Última Invenção

“A primeira máquina ultrainteligente será a última invenção que o homem precisará fazer.” — I. J. Good, 1965

Hoje, novas ferramentas de inteligência artificial surgem numa velocidade que nós mal conseguimos acompanhar. Quando começamos a entender uma, chega outra prometendo fazer tudo melhor. Para quem trabalha com programação, essa mudança é muito clara: há pouco tempo, o máximo que essas ferramentas faziam era sugerir um trecho de código tímido enquanto digitávamos. Agora, nós descrevemos o que queremos e programas inteiros aparecem prontos na tela.

Mas o ponto principal não é a quantidade de lançamentos. É o fato de que a IA deixou de ser apenas um produto final para virar parte do próprio processo de criação. Em Vida 3.0 (Benvirá, 2020), Max Tegmark chama isso de inteligência artificial recursiva. Não é à toa que o desenvolvimento de software tem sido a área mais impactada: como a IA é feita de código, ao aprender a programar, ela consegue se retroalimentar. Cada passo diminui o trabalho do próximo. Basicamente, a máquina ganha o poder de participar da sua própria evolução.

Isso pode assustar, mas a inteligência humana sempre funcionou do mesmo jeito. Ninguém nasce sabendo matemática ou física. Nós aprendemos lendo livros de pessoas que nunca vimos e construímos coisas novas em cima de descobertas antigas. Nossa inteligência individual é só a ponta de um iceberg, apoiada numa base invisível de linguagem e história. Somos, no fundo, mentes biológicas usando o conhecimento acumulado de todo mundo que veio antes.

A grande diferença é que, para nós, esse processo sempre foi lento. O conhecimento levava décadas para se espalhar. Teorias demoravam gerações para amadurecer. Com a IA, esse tempo encolheu. O que antes levava uma vida inteira agora acontece em meses. O aprendizado deixou de ser apenas humano e virou misto. Entregamos parte da criação para máquinas que funcionam numa escala que nós não conseguimos alcançar.

Isso não é necessariamente ruim. O problema não é a ferramenta ficar mais inteligente, mas sim nós perdermos o controle sobre para onde ela está indo. Sempre convivemos com avanços tecnológicos, da imprensa à internet, mas agora o jogo é diferente. O verdadeiro risco é nós lavarmos as mãos e deixarmos esse ciclo rodar solto, sem valores humanos claros e sem ninguém no comando. Se fizermos isso, acabaremos transformando a previsão de I. J. Good em uma profecia apocalíptica.

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