
Como profissional de TI e professor, confesso que poucas coisas têm me incomodado tanto quanto a distância crescente entre a velocidade da tecnologia e o ritmo do ensino superior. Em poucos anos, a Inteligência Artificial saiu do campo da experimentação para o uso cotidiano. Foi rápido. Rápido demais. E tudo indica que esse ritmo só vai acelerar. O problema é que a sala de aula não muda na mesma velocidade.
Hoje, a IA já escreve código, explica erros, sugere arquiteturas e responde dúvidas que antes exigiam anos de prática. Não estamos falando de futuro ou de uma tendência distante. Isso já está acontecendo. No mercado, essas ferramentas viraram parte do fluxo de trabalho. Fingir que essas ferramentas não fazem parte do processo é continuar ensinando para um mundo que já não existe.
Para profissionais de TI que já estavam no mercado, essa transição foi relativamente suave. Eles conheciam os fundamentos, entendiam o que estavam pedindo à ferramenta e conseguiam validar as respostas. A IA virou apoio. Acelerador. Já para quem está começando, o cenário é bem mais perigoso. O estudante aprende a chegar na resposta antes de aprender o caminho. E isso cobra um preço. Aos poucos, esses profissionais tendem a perder relevância, não porque a IA é melhor, mas porque nunca construíram a base necessária.
Essa discussão não é nova. Edsger W. Dijkstra, um dos pioneiros da ciência da computação, já alertava: “O objetivo do ensino da computação não é ensinar uma linguagem, mas ensinar as pessoas a pensar”. O problema é que agora essa frase deixou de ser conceitual e virou prática diária. Se o aluno não aprende a pensar, ele não consegue nem perceber quando a IA erra. E ela erra. Com frequência.
O impacto disso aparece claramente na forma como avaliamos. Trabalhos e projetos que deveriam estimular raciocínio acabam virando exercícios de prompt. Já vi alunos entregarem códigos “perfeitos”, mas incapazes de explicar uma única decisão tomada. A entrega final vira um intermediário automático entre a ferramenta e o professor. Não há reflexão ali. Só execução.
Isso exige uma mudança real no papel do professor e das instituições. O docente deixa de ser apenas transmissor de conteúdo. Passa a ser alguém que provoca, questiona e expõe limites. Avaliar não é mais pedir para criar algo do zero, mas pedir para analisar, corrigir, criticar e justificar. Em vez de proibir IA, é preciso usá-la contra ela mesma. Fazer o aluno pensar.
Como resume Ethan Mollick em “Cointelligence” (2024): “O valor não está em substituir o humano pela máquina, mas em aprender a trabalhar com ela de forma inteligente”. O futuro do ensino de tecnologia não está na rejeição da IA, nem na sua adoção cega. Está em formar profissionais que dominem fundamentos, entendam contexto e saibam usar essas ferramentas com responsabilidade.