
Escrever costumava dar trabalho. Exigia sentar, organizar o pensamento, escolher as palavras e cortar os excessos para que a ideia fizesse sentido dentro de um espaço limitado. Havia um custo óbvio de energia física e mental envolvido na produção de qualquer linha.
A inteligência artificial mudou essa dinâmica ao reduzir drasticamente o custo da escrita. Hoje, produzir páginas inteiras de um texto bem estruturado virou algo trivial e acessível. O problema é que passamos a testemunhar um efeito colateral: quando escrever fica barato demais, ler se torna extremamente caro.
No século XVII, Blaise Pascal resumiu a economia da escrita em uma frase célebre: “Fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de fazê-la mais curta”. Ele compreendia que a concisão exige esforço, reflexão e tempo, enquanto a prolixidade é o caminho mais fácil. A tecnologia atual inverteu essa lógica profunda. Como gerar volume não custa mais nada para quem escreve, também deixou de existir um incentivo para cortar excessos. O ambiente acabou sendo inundado por uma enxurrada de textões.
Agora, ideias ridiculamente simples aparecem embrulhadas em páginas e páginas de um texto perfeitamente construído, mas completamente redundante. Transformamos conceitos banais em grandes dissertações corporativas apenas porque preencher a tela deixou de ser doloroso.
O recurso escasso deixou de ser a capacidade de produzir texto e passou a ser conquistar e merecer a atenção de quem lê. Afinal, a leitura exige um esforço cognitivo ativo. Cada texto demanda alguns minutos de atenção exclusiva para que o leitor acompanhe o raciocínio e construa uma compreensão do que está sendo apresentado. Diante de feeds saturados de textos inflados, quem lê simplesmente cansa.
Para piorar, a facilidade de produção trouxe um elemento perverso: os modelos de IA atuais são excelentes em produzir textos que soam confiáveis, mesmo quando a informação por trás é superficial ou incorreta.
No passado, um argumento ruim vinha acompanhado de sinais claros, como erros de digitação, falta de coesão ou uma estrutura capenga. Havia um alerta natural para o leitor. Agora, a inconsistência vem perfeitamente revisada e coerente. Hoje não basta apenas entender um texto, também precisamos decidir se podemos confiar nele.
A solução seria usar a própria IA para resumir esse excesso de linhas? Quando uma máquina resume o que outra escreveu, criamos um ciclo absurdo. O resultado é uma informação de segunda mão, que perde toda a nuance original. Pior ainda, o sistema apenas comprime os erros, tornando uma ideia ruim mais rápida de engolir.
Em um mundo onde qualquer sistema gera mil palavras em segundos, o verdadeiro mérito migrou para quem investe o próprio tempo para enxugar a ideia, demonstrando respeito pelo tempo alheio e a coragem de ser conciso. Quando escrever era caro, valorizávamos quem produzia bons textos. Agora, talvez devêssemos valorizar quem sabe parar de escrever na hora certa.