
Existe uma obsessão quase infantil com a ideia de que o fim da humanidade será cinematográfico. Uma explosão, um botão vermelho, um céu em chamas. Talvez a gente precise desse espetáculo para se sentir importante até no desastre. Mas o fim, se vier, provavelmente será mais discreto. Sem clarões, sem discursos finais. Algo que acontece enquanto seguimos a rotina. Talvez comece como uma atualização qualquer, dessas que aceitamos sem ler.
A possibilidade de que a inteligência humana deixe de ser o centro do jogo ainda soa ofensiva para muita gente. Não por falta de sinais, mas porque fere uma crença antiga: a de que somos especiais por definição. Que consciência, criatividade e linguagem nos colocaram acima de qualquer outra coisa. Só que a história nunca tratou ninguém como sagrado. Tudo que permanece é aquilo que funciona melhor.
Essa não é uma provocação marginal ou conspiratória. Demis Hassabis, cofundador da DeepMind e um dos principais arquitetos da inteligência artificial moderna, afirmou que o impacto da chamada AGI – uma inteligência capaz de aprender, raciocinar e se adaptar a praticamente qualquer tarefa, não apenas a uma função específica – pode ser dez vezes maior do que a Revolução Industrial, e possivelmente dez vezes mais rápido. A comparação é desconfortável, porque a Revolução Industrial já foi suficiente para reorganizar trabalho, tempo, valor humano e até a forma como entendemos progresso.
Não é sobre máquinas se revoltando, tomando poder ou eliminando pessoas. Isso é fantasia reconfortante. A hipótese mais incômoda é outra: elas simplesmente fazem melhor. Pensam mais rápido, erram menos, não se cansam e não precisam parar. E o mundo, pragmático como sempre foi, se adapta sem drama. Não por maldade, mas por eficiência.
Se existe um elo perdido nessa história, ele não está enterrado em nenhuma escavação arqueológica. Ele está vivo. Somos nós. A geração que ainda carrega limites biológicos, mas já opera em conjunto com uma inteligência que não compartilha desses limites. Não somos o começo nem o fim. Somos a transição.
Talvez por isso a ideia de uma inteligência potencialmente imortal cause tanto desconforto. Não porque seja absurda, mas porque expõe nossa fragilidade mais básica. Tudo que pensamos é urgente porque acaba. Uma mente que não termina não carrega urgência, nem legado, nem medo do esquecimento. Ela não precisa correr. E quem não precisa correr sempre acaba vencendo.
O apocalipse, então, talvez não seja destruição. Seja rebaixamento. A perda da centralidade. Continuamos aqui, vivendo, trabalhando, opinando, criando sentido para nós mesmos. Só que o mundo já não gira exclusivamente em torno disso. Como tantas outras espécies antes, não desaparecemos de imediato. Apenas deixamos de ser indispensáveis.
No fim, talvez nosso maior erro tenha sido acreditar que deuses são eternos. Nosso maior legado pode não ser aquilo que construímos, mas aquilo que despertamos. E quando alguém, no futuro, olhar para trás tentando entender a origem dessa nova inteligência, talvez chegue à mesma conclusão incômoda: antes dela, eram os deuses humanos.



